Genealogia do Descentramento do Sujeito e a Dissolução da Agência no Identitarismo Contemporâneo
Introdução
Uma parte significativa do debate contemporâneo em torno de gênero, raça e identidade é marcada por uma tensão fundamental: ao mesmo tempo em que denuncia o essencialismo clássico e reivindica a fluidez das categorias sociais, o identitarismo parece reinstaurar novas essências normativas, agora sob linguagem emancipatória. Essa tensão não é meramente política ou retórica; ela possui raízes filosóficas profundas, relacionadas à forma como a modernidade tardia herdou e radicalizou operações conceituais oriundas do estruturalismo e do pós-estruturalismo.
Este ensaio propõe uma genealogia dessa transformação intelectual, partindo da linguística estrutural de Ferdinand de Saussure, passando pelo estruturalismo e pelo pós-estruturalismo franceses, até chegar ao identitarismo institucional contemporâneo. A tese central é que, ao longo desse percurso, ocorreu uma operação recorrente: o deslocamento da razão e da agência do sujeito concreto para instâncias supraindividuais — estrutura, discurso, ideologia ou posição identitária. Essa operação culmina naquilo que se pode chamar de uma metafísica secular identitária, funcionalmente análoga a uma antiga controvérsia medieval: a doutrina averroísta da unidade do intelecto.
Ao recuperar a refutação tomista do averroísmo — condensada na fórmula hic homo intelligit —, o ensaio argumenta que a dissolução contemporânea da agência individual não é apenas um problema político, mas uma regressão epistemológica e ética. A análise culmina no campo dos Men’s Rights, entendido não como movimento sociológico, mas como caso-limite filosófico em que o erro averroísta secular se manifesta com máxima clareza.

A desintegração da forma como metáfora da perda da razão habitada: quando o intelecto se separa do sujeito, resta a queda.
I. Ferdinand de Saussure e a Primazia da Estrutura
O ponto de partida dessa genealogia encontra-se na linguística estrutural de Ferdinand de Saussure. Ao distinguir langue e parole, Saussure desloca o foco da análise linguística do sujeito falante individual para o sistema de diferenças que torna a fala possível. O significado não deriva da intenção subjetiva, mas das relações diferenciais entre signos dentro de uma estrutura autônoma (SAUSSURE, 2012).
Essa operação, metodologicamente fecunda para a linguística, possui consequências filosóficas amplas. A linguagem deixa de ser instrumento do sujeito e passa a ser condição de possibilidade de sua inteligibilidade. O falante não cria o sentido; ele o atualiza a partir de um sistema que o precede. Ainda que Saussure não negue a existência do sujeito, a centralidade explicativa desloca-se decisivamente para a estrutura.
Esse deslocamento inaugura um gesto intelectual que será reiterado ao longo do século XX: compreender o humano não a partir da interioridade consciente, mas a partir de sistemas objetivos que o atravessam. O sujeito começa a perder estatuto ontológico forte, tornando-se efeito ou função de estruturas impessoais.
II. O Estruturalismo e o Sujeito Descentrado
O estruturalismo amplia essa operação para além da linguística. Na antropologia de Claude Lévi-Strauss, os mitos e sistemas de parentesco não são expressões da consciência coletiva, mas manifestações de estruturas inconscientes universais (LÉVI-STRAUSS, 2008). O pensamento humano opera segundo invariantes formais que independem da intenção individual.
Em Louis Althusser, a operação assume contornos explicitamente políticos. O sujeito é “interpelado” pela ideologia, constituindo-se como efeito de aparelhos ideológicos do Estado (ALTHUSSER, 1980). A consciência deixa de ser fundamento da ação; torna-se produto de mecanismos estruturais de reprodução social.
Jacques Lacan radicaliza esse movimento ao afirmar que “o inconsciente é estruturado como uma linguagem” (LACAN, 1998). O sujeito é dividido, descentrado, falado pelo simbólico. A autonomia da razão individual é substituída por uma topologia do desejo e da linguagem que precede o eu.
Em todos esses autores, a operação é análoga: o sujeito deixa de ser origem do sentido e da ação, tornando-se lugar de passagem de estruturas que o excedem. Ainda que a intenção não seja normativa, o efeito acumulado é a erosão progressiva da agência individual como categoria filosófica robusta.
III. Averróis e a Unidade do Intelecto
Essa erosão encontra um paralelo notável na filosofia medieval, particularmente na doutrina averroísta da unidade do intelecto. Comentando Aristóteles, Averróis sustentou que o intelecto agente é único, universal e separado dos indivíduos humanos. Os homens não pensam propriamente; participam de um intelecto comum que realiza o ato de conhecer (AVERROES, 2009).
Essa posição tinha consequências profundas. Se o intelecto é separado, a individualidade do pensamento torna-se problemática: como atribuir responsabilidade moral, erro ou mérito a sujeitos que não são propriamente agentes do conhecimento? A cognição passa a residir em uma substância supraindividual, e o indivíduo torna-se mero receptáculo.
Tomás de Aquino percebeu com clareza o problema. Em sua refutação, insistiu que hic homo intelligit — este homem concreto entende (AQUINO, 2004). O ato de conhecer pertence ao indivíduo humano, ainda que mediado por formas universais. Sem essa afirmação, argumenta Aquino, não há ética, nem política, nem vida intelectual propriamente humana.
O ponto decisivo não é teológico, mas filosófico: a razão deve habitar o sujeito concreto. Qualquer doutrina que a separe dissolve a possibilidade de agência moral e cognitiva.
IV. Pós-Estruturalismo e o Fundamento Sem Fundamento
O pós-estruturalismo herda o gesto estruturalista, mas o radicaliza criticamente. Jacques Derrida mostra que toda estrutura repousa sobre exclusões e instabilidades internas; não há fundamento último que garanta o sentido (DERRIDA, 1997). O significado é sempre diferido, produzido por um jogo infinito de diferenças.
Michel Foucault desloca a análise para os regimes históricos de verdade. O que conta como conhecimento não é determinado pela razão universal, mas por práticas discursivas e relações de poder situadas (FOUCAULT, 2008). A verdade torna-se efeito de dispositivos institucionais, não correspondência a um real acessível universalmente.
Essas críticas são filosoficamente sofisticadas e visam desmontar pretensões totalizantes da modernidade. Contudo, ao suspender a possibilidade de um ponto de vista universal compartilhável, o pós-estruturalismo fragiliza a noção de mediação racional entre sujeitos. A crítica ao fundamento corre o risco de converter-se em negação da razão comum.
V. Butler e a Performatividade
Judith Butler introduz a noção de performatividade para pensar gênero como efeito reiterado de normas discursivas, não como essência natural (BUTLER, 1990; 1993). A identidade de gênero é instável, produzida por repetições que podem ser subvertidas.
Importa notar: Butler não propõe uma nova essência. Ao contrário, ela alerta explicitamente contra a reificação das identidades e reconhece o risco de transformar categorias críticas em substâncias normativas (BUTLER, 1993). A ambiguidade é constitutiva de sua teoria.
O problema surge não no plano teórico, mas na tradução institucional dessa ambiguidade.
VI. Da Performatividade à Prescrição: Mediação Institucional
Quando conceitos pós-estruturalistas são incorporados por instituições — universidades, políticas de diversidade, protocolos administrativos e jurídicos —, sua função muda. Instituições operam com critérios de decidibilidade e aplicabilidade. Categorias precisam ser estabilizadas para produzir efeitos normativos.
Esse processo ocorre em três momentos: didatização, juridificação e normativização moral. Conceitos críticos tornam-se conteúdos pedagógicos simplificados; categorias identitárias passam a ter efeitos legais; e posições sociais convertem-se em marcadores de autoridade moral e epistêmica (FOUCAULT, 2008).
O resultado é paradoxal: teorias que visavam dissolver essências produzem novas essências operacionais. A crítica ao substancialismo dá lugar a um substancialismo normativo secular.
VII. Privilégio Epistêmico e Autoridade Ontológica
A noção de privilégio epistêmico ilustra essa mutação. Em versões sofisticadas da standpoint theory, posições marginalizadas podem oferecer vantagens epistêmicas provisórias, desde que submetidas à crítica intersubjetiva (HARDING, 1991; COLLINS, 2000). Não há acesso automático à verdade.
Na versão institucionalizada do identitarismo, essa cautela desaparece. A experiência vivida torna-se critério incontestável; a posição identitária confere autoridade epistêmica automática. Forma-se um sistema circular: contestar uma afirmação é desqualificado como expressão de privilégio estrutural.
O resultado é a substituição do sujeito cognoscente pela categoria autorizadora. Não é o indivíduo que conhece; é a identidade que conhece através dele. O hic homo intelligit é substituído por haec identitas certificat.
VIII. O Retorno do Erro Averroísta
Essa operação configura uma homologia estrutural com o averroísmo. Assim como o intelecto separado medieval deslocava a cognição do indivíduo para uma substância comum, o identitarismo desloca a razão do sujeito para a posição identitária certificada. A agência dissolve-se em estruturas que pensam por ele.
IX. Men’s Rights e a Restauração da Agência
O campo dos Men’s Rights revela esse mecanismo em sua forma mais nítida. O sujeito masculino é reduzido a portador de uma categoria estrutural totalizante — “opressor”, “patriarcado”, “masculinidade hegemônica”. Vulnerabilidades masculinas concretas tornam-se invisíveis ou moralmente deslegitimadas.
A acusação de que Men’s Rights seria mera reação patriarcal confunde planos. A existência de apropriações reacionárias não invalida a reivindicação legítima de que homens concretos possuem vulnerabilidades específicas. Negar essa possibilidade é repetir o erro averroísta: dissolver o indivíduo na abstração.
A restauração da agência exige princípios não-identitários: universalismo falibilista, simetria epistêmica, reconhecimento de particularidades sem essencialização e mediação racional de conflitos.
Conclusão: A Razão Habitada ou a Estrutura Separada
O identitarismo contemporâneo não falha por denunciar desigualdades, mas por reinstaurar, sob linguagem secular, uma metafísica que dissolve a agência individual. Ao deslocar a razão do sujeito para estruturas identitárias, repete o erro averroísta sob nova forma.
A resposta tomista permanece atual: a razão habita o sujeito concreto. Sem o hic homo intelligit, não há ética, nem justiça, nem política racional — apenas poder legitimado pela linguagem da virtude.
Referências (ABNT)
ALTHUSSER, Louis. Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado. Lisboa: Presença, 1980.
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. São Paulo: Loyola, 2004.
AVERROES. Long Commentary on the De Anima. Oxford: Oxford University Press, 2009.
BUTLER, Judith. Gender Trouble. New York: Routledge, 1990.
BUTLER, Judith. Bodies That Matter. New York: Routledge, 1993.
COLLINS, Patricia Hill. Black Feminist Thought. New York: Routledge, 2000.
DERRIDA, Jacques. Of Grammatology. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1997.
FOUCAULT, Michel. Segurança, território, população. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
HARDING, Sandra. Whose Science? Whose Knowledge? Ithaca: Cornell University Press, 1991.
KUPERS, Terry A. Toxic masculinity as a barrier to mental health treatment in prison. Journal of Clinical Psychology, v. 61, n. 6, p. 713-724, 2005.
LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural. São Paulo: Cosac Naify, 2008.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geral. São Paulo: Cultrix, 2012.
