O elefante na sala tem barba — e ninguém fala sobre ele
Quando falamos em violência por parceiro íntimo (VPI), a imagem mental mais comum é de uma mulher agredida por um homem. E com razão: mulheres são, de fato, a maioria esmagadora das vítimas notificadas. Mas isso não significa que homens estejam a salvo — só que, muitas vezes, estão invisíveis.

O que é VPI, afinal?
A VPI é uma forma de violência que ocorre entre pessoas que têm, ou tiveram, um vínculo afetivo ou sexual. Pode se manifestar como:
- – Agressão física
- – Abuso psicológico
- – Violência sexual
- – Perseguição ou coerção (stalking, ameaças)
A Organização Mundial da Saúde estima que uma em cada três mulheres no mundo já sofreu violência física ou sexual por um parceiro íntimo [ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2016].
VPI contra homens existe — mas parece que ninguém quer ver
Segundo o Boletim Epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde, publicado pelo Ministério da Saúde em 2020, 8,5% das notificações de violência por parceiro íntimo no Brasil em 2018 foram de vítimas do sexo masculino. Isso representa 6.607 homens [BRASIL, 2020].
A pergunta é: esse número reflete a realidade ou só o que foi possível enxergar por trás da neblina do silêncio e do preconceito?

A grande cortina de fumaça da subnotificação
Vários fatores contribuem para que os casos de VPI contra homens fiquem fora das estatísticas:
🚫 Estigmas sociais
Homens são socializados para “aguentar firme”, “não levar desaforo pra casa” e, claro, nunca “apanhar de mulher”. Admitir que foram agredidos pode ser visto como fraqueza.
🤷 Desinformação
Muitos nem sequer reconhecem que estão em relacionamentos abusivos. Violência psicológica ou patrimonial raramente são interpretadas como “agressão”.
🏥 Barreiras institucionais
Serviços de acolhimento voltados a homens vítimas de violência são raríssimos. Alguns sequer sabem para onde ir quando precisam de ajuda.
📊 Distorções na notificação
Profissionais de saúde podem hesitar em registrar casos leves de agressão contra homens ou nem sequer perguntar sobre o contexto íntimo.
O ciclo da invisibilidade da VPI masculina: Subnotificação gera dados imprecisos → o problema parece menor → políticas públicas não se voltam a ele → vítimas ficam sem amparo → menos denúncias → e o ciclo continua.
Dados que sugerem algo mais profundo
🇺🇸 Estados Unidos
O levantamento NISVS (2015) revelou que:
- – 1 em cada 3 homens já sofreu violência física de parceira íntima
- – 1 em cada 10 homens relatou contato sexual forçado [SMITH et al., 2018].

🇧🇷 Brasil
Um estudo de base populacional feito por Lindner et al. (2015), em Florianópolis, revelou um dado inesperado:
Homens: 16,1% relataram violência física de parceira íntima
Mulheres: 17,5% [LINDNER et al., 2015].

As consequências para a saúde dos homens
As vítimas do sexo masculino podem apresentar:
- – Transtornos de ansiedade e depressão;
- – Estresse pós-traumático e abuso de substâncias;
- – Isolamento, ideação suicida e não procura por atendimento [RANDLE; GRAHAM, 2011; COKER et al., 2002].
Diferenças no padrão de agressão
Homens sofrem mais agressões com objetos cortantes ou contundentes. Já mulheres são mais atingidas por violência direta, como estrangulamento ou força física [BRASIL, 2020].

Estudos mostram também diferenças de motivação:
- – Homens: poder e controle;
- – Mulheres: autodefesa ou reação emocional [LANGHINRICHSEN-ROHLING et al., 2012].
Como os dados oficiais são construídos (e onde falham)
As fichas do SINAN dependem de quem notifica, como pergunta e se o agressor é de fato identificado como parceiro íntimo. Se o campo 61 (vínculo com o agressor) não for corretamente preenchido, o caso pode nem ser classificado como VPI [BRASIL, 2020].
Visibilidade não é competição
Dar visibilidade à VPI masculina não apaga a luta das mulheres — muito pelo contrário. Permite enxergar com mais nitidez as diversas formas de sofrimento e agir com mais eficácia.
O que vem a seguir
Este é o primeiro de uma série de artigos que vai explorar a VPI a fundo — com dados, análises, teoria estatística bayesiana e exemplos práticos.
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Violência por parceiro íntimo contra homens e mulheres no Brasil: dados da Vigilância de Violências e Acidentes. Boletim Epidemiológico, v. 51, n. 49, p. 1–7, dez. 2020.
COKER, A. L.; DAVIS, K. E.; ARIAS, I.; DESAI, S.; SANDERSON, M.; BRANDT, H. M.; et al. Physical and mental health effects of intimate partner violence for men and women. American Journal of Preventive Medicine, v. 23, n. 4, p. 260–268, 2002.
LANGHINRICHSEN-ROHLING, J.; MCCULLARS, A.; MISRA, T. A. Motivations for Men and Women’s Intimate Partner Violence Perpetration: A Comprehensive Review. Partner Abuse, v. 3, n. 4, p. 429–468, 2012.
LINDNER, S. R.; COELHO, E. B. S.; BOLSONI, C. C.; ROJAS, P. F.; BOING, A. F.; et al. Prevalência de violência física por parceiro íntimo em homens e mulheres de Florianópolis, Santa Catarina, Brasil: estudo de base populacional. Cadernos de Saúde Pública, v. 31, n. 4, p. 815–826, 2015.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Violence against women: intimate partner and sexual violence against women. Geneva: WHO, 2016.
RANDLE, A. A.; GRAHAM, C. A. A review of the evidence on the effects of intimate partner violence on men. Psychology of Men & Masculinity, v. 12, n. 2, p. 97–111, 2011.
SMITH, S. G.; ZHANG, X.; BASILE, K. C.; MERRICK, M. T.; WANG, J.; KRESNOW, M.-J.; et al. The National Intimate Partner and Sexual Violence Survey (NISVS): 2015 Data Brief – Updated Release. Atlanta: National Center for Injury Prevention and Control, Centers for Disease Control and Prevention, 2018.
