{"id":7739,"date":"2025-12-21T08:33:41","date_gmt":"2025-12-21T11:33:41","guid":{"rendered":"https:\/\/iddh.com.br\/blog\/?p=7739"},"modified":"2026-04-29T19:26:15","modified_gmt":"2026-04-29T22:26:15","slug":"erro-averroista-metafisica-identitaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/iddh.com.br\/blog\/erro-averroista-metafisica-identitaria\/","title":{"rendered":"O Erro Averro\u00edsta e a Reconfigura\u00e7\u00e3o Secular da Metaf\u00edsica Identit\u00e1ria"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Genealogia do Descentramento do Sujeito e a Dissolu\u00e7\u00e3o da Ag\u00eancia no Identitarismo Contempor\u00e2neo<\/h3>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Uma parte significativa do debate contempor\u00e2neo em torno de g\u00eanero, ra\u00e7a e identidade \u00e9 marcada por uma tens\u00e3o fundamental: ao mesmo tempo em que denuncia o essencialismo cl\u00e1ssico e reivindica a fluidez das categorias sociais, o identitarismo parece reinstaurar novas ess\u00eancias normativas, agora sob linguagem emancipat\u00f3ria. Essa tens\u00e3o n\u00e3o \u00e9 meramente pol\u00edtica ou ret\u00f3rica; ela possui ra\u00edzes filos\u00f3ficas profundas, relacionadas \u00e0 forma como a modernidade tardia herdou e radicalizou opera\u00e7\u00f5es conceituais oriundas do estruturalismo e do p\u00f3s-estruturalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Este ensaio prop\u00f5e uma genealogia dessa transforma\u00e7\u00e3o intelectual, partindo da lingu\u00edstica estrutural de Ferdinand de Saussure, passando pelo estruturalismo e pelo p\u00f3s-estruturalismo franceses, at\u00e9 chegar ao identitarismo institucional contempor\u00e2neo. A tese central \u00e9 que, ao longo desse percurso, ocorreu uma opera\u00e7\u00e3o recorrente: o deslocamento da raz\u00e3o e da ag\u00eancia do sujeito concreto para inst\u00e2ncias supraindividuais \u2014 estrutura, discurso, ideologia ou posi\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria. Essa opera\u00e7\u00e3o culmina naquilo que se pode chamar de uma <strong>metaf\u00edsica secular identit\u00e1ria<\/strong>, funcionalmente an\u00e1loga a uma antiga controv\u00e9rsia medieval: a doutrina averro\u00edsta da unidade do intelecto.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao recuperar a refuta\u00e7\u00e3o tomista do averro\u00edsmo \u2014 condensada na f\u00f3rmula <em>hic homo intelligit<\/em> \u2014, o ensaio argumenta que a dissolu\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea da ag\u00eancia individual n\u00e3o \u00e9 apenas um problema pol\u00edtico, mas uma regress\u00e3o epistemol\u00f3gica e \u00e9tica. A an\u00e1lise culmina no campo dos <em>Men\u2019s Rights<\/em>, entendido n\u00e3o como movimento sociol\u00f3gico, mas como <strong>caso-limite filos\u00f3fico<\/strong> em que o erro averro\u00edsta secular se manifesta com m\u00e1xima clareza.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"739\" src=\"https:\/\/iddh.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Pieter-Brugel-1952-1024x739.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7740\" srcset=\"https:\/\/iddh.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Pieter-Brugel-1952-1024x739.jpg 1024w, https:\/\/iddh.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Pieter-Brugel-1952-300x217.jpg 300w, https:\/\/iddh.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Pieter-Brugel-1952-768x555.jpg 768w, https:\/\/iddh.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Pieter-Brugel-1952-150x108.jpg 150w, https:\/\/iddh.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Pieter-Brugel-1952-450x325.jpg 450w, https:\/\/iddh.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Pieter-Brugel-1952-1200x866.jpg 1200w, https:\/\/iddh.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Pieter-Brugel-1952.jpg 1360w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Pieter Bruegel, <em>A Queda dos Anjos Rebeldes<\/em> (1562).<\/strong><br>A desintegra\u00e7\u00e3o da forma como met\u00e1fora da perda da raz\u00e3o habitada: quando o intelecto se separa do sujeito, resta a queda.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">I. Ferdinand de Saussure e a Primazia da Estrutura<\/h2>\n\n\n\n<p>O ponto de partida dessa genealogia encontra-se na lingu\u00edstica estrutural de Ferdinand de Saussure. Ao distinguir <em>langue<\/em> e <em>parole<\/em>, Saussure desloca o foco da an\u00e1lise lingu\u00edstica do sujeito falante individual para o sistema de diferen\u00e7as que torna a fala poss\u00edvel. O significado n\u00e3o deriva da inten\u00e7\u00e3o subjetiva, mas das rela\u00e7\u00f5es diferenciais entre signos dentro de uma estrutura aut\u00f4noma (SAUSSURE, 2012).<\/p>\n\n\n\n<p>Essa opera\u00e7\u00e3o, metodologicamente fecunda para a lingu\u00edstica, possui consequ\u00eancias filos\u00f3ficas amplas. A linguagem deixa de ser instrumento do sujeito e passa a ser condi\u00e7\u00e3o de possibilidade de sua inteligibilidade. O falante n\u00e3o cria o sentido; ele o atualiza a partir de um sistema que o precede. Ainda que Saussure n\u00e3o negue a exist\u00eancia do sujeito, a centralidade explicativa desloca-se decisivamente para a estrutura.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse deslocamento inaugura um gesto intelectual que ser\u00e1 reiterado ao longo do s\u00e9culo XX: compreender o humano n\u00e3o a partir da interioridade consciente, mas a partir de sistemas objetivos que o atravessam. O sujeito come\u00e7a a perder estatuto ontol\u00f3gico forte, tornando-se efeito ou fun\u00e7\u00e3o de estruturas impessoais.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">II. O Estruturalismo e o Sujeito Descentrado<\/h2>\n\n\n\n<p>O estruturalismo amplia essa opera\u00e7\u00e3o para al\u00e9m da lingu\u00edstica. Na antropologia de Claude L\u00e9vi-Strauss, os mitos e sistemas de parentesco n\u00e3o s\u00e3o express\u00f5es da consci\u00eancia coletiva, mas manifesta\u00e7\u00f5es de estruturas inconscientes universais (L\u00c9VI-STRAUSS, 2008). O pensamento humano opera segundo invariantes formais que independem da inten\u00e7\u00e3o individual.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Louis Althusser, a opera\u00e7\u00e3o assume contornos explicitamente pol\u00edticos. O sujeito \u00e9 \u201cinterpelado\u201d pela ideologia, constituindo-se como efeito de aparelhos ideol\u00f3gicos do Estado (ALTHUSSER, 1980). A consci\u00eancia deixa de ser fundamento da a\u00e7\u00e3o; torna-se produto de mecanismos estruturais de reprodu\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p>Jacques Lacan radicaliza esse movimento ao afirmar que \u201co inconsciente \u00e9 estruturado como uma linguagem\u201d (LACAN, 1998). O sujeito \u00e9 dividido, descentrado, falado pelo simb\u00f3lico. A autonomia da raz\u00e3o individual \u00e9 substitu\u00edda por uma topologia do desejo e da linguagem que precede o eu.<\/p>\n\n\n\n<p>Em todos esses autores, a opera\u00e7\u00e3o \u00e9 an\u00e1loga: o sujeito deixa de ser origem do sentido e da a\u00e7\u00e3o, tornando-se lugar de passagem de estruturas que o excedem. Ainda que a inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja normativa, o efeito acumulado \u00e9 a eros\u00e3o progressiva da ag\u00eancia individual como categoria filos\u00f3fica robusta.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">III. Averr\u00f3is e a Unidade do Intelecto<\/h2>\n\n\n\n<p>Essa eros\u00e3o encontra um paralelo not\u00e1vel na filosofia medieval, particularmente na doutrina averro\u00edsta da unidade do intelecto. Comentando Arist\u00f3teles, Averr\u00f3is sustentou que o intelecto agente \u00e9 \u00fanico, universal e separado dos indiv\u00edduos humanos. Os homens n\u00e3o pensam propriamente; participam de um intelecto comum que realiza o ato de conhecer (AVERROES, 2009).<\/p>\n\n\n\n<p>Essa posi\u00e7\u00e3o tinha consequ\u00eancias profundas. Se o intelecto \u00e9 separado, a individualidade do pensamento torna-se problem\u00e1tica: como atribuir responsabilidade moral, erro ou m\u00e9rito a sujeitos que n\u00e3o s\u00e3o propriamente agentes do conhecimento? A cogni\u00e7\u00e3o passa a residir em uma subst\u00e2ncia supraindividual, e o indiv\u00edduo torna-se mero recept\u00e1culo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tom\u00e1s de Aquino percebeu com clareza o problema. Em sua refuta\u00e7\u00e3o, insistiu que <em>hic homo intelligit<\/em> \u2014 este homem concreto entende (AQUINO, 2004). O ato de conhecer pertence ao indiv\u00edduo humano, ainda que mediado por formas universais. Sem essa afirma\u00e7\u00e3o, argumenta Aquino, n\u00e3o h\u00e1 \u00e9tica, nem pol\u00edtica, nem vida intelectual propriamente humana.<\/p>\n\n\n\n<p>O ponto decisivo n\u00e3o \u00e9 teol\u00f3gico, mas filos\u00f3fico: a raz\u00e3o deve habitar o sujeito concreto. Qualquer doutrina que a separe dissolve a possibilidade de ag\u00eancia moral e cognitiva.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">IV. P\u00f3s-Estruturalismo e o Fundamento Sem Fundamento<\/h2>\n\n\n\n<p>O p\u00f3s-estruturalismo herda o gesto estruturalista, mas o radicaliza criticamente. Jacques Derrida mostra que toda estrutura repousa sobre exclus\u00f5es e instabilidades internas; n\u00e3o h\u00e1 fundamento \u00faltimo que garanta o sentido (DERRIDA, 1997). O significado \u00e9 sempre diferido, produzido por um jogo infinito de diferen\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Michel Foucault desloca a an\u00e1lise para os regimes hist\u00f3ricos de verdade. O que conta como conhecimento n\u00e3o \u00e9 determinado pela raz\u00e3o universal, mas por pr\u00e1ticas discursivas e rela\u00e7\u00f5es de poder situadas (FOUCAULT, 2008). A verdade torna-se efeito de dispositivos institucionais, n\u00e3o correspond\u00eancia a um real acess\u00edvel universalmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas cr\u00edticas s\u00e3o filosoficamente sofisticadas e visam desmontar pretens\u00f5es totalizantes da modernidade. Contudo, ao suspender a possibilidade de um ponto de vista universal compartilh\u00e1vel, o p\u00f3s-estruturalismo fragiliza a no\u00e7\u00e3o de media\u00e7\u00e3o racional entre sujeitos. A cr\u00edtica ao fundamento corre o risco de converter-se em nega\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o comum.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">V. Butler e a Performatividade<\/h2>\n\n\n\n<p>Judith Butler introduz a no\u00e7\u00e3o de performatividade para pensar g\u00eanero como efeito reiterado de normas discursivas, n\u00e3o como ess\u00eancia natural (BUTLER, 1990; 1993). A identidade de g\u00eanero \u00e9 inst\u00e1vel, produzida por repeti\u00e7\u00f5es que podem ser subvertidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Importa notar: Butler n\u00e3o prop\u00f5e uma nova ess\u00eancia. Ao contr\u00e1rio, ela alerta explicitamente contra a reifica\u00e7\u00e3o das identidades e reconhece o risco de transformar categorias cr\u00edticas em subst\u00e2ncias normativas (BUTLER, 1993). A ambiguidade \u00e9 constitutiva de sua teoria.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema surge n\u00e3o no plano te\u00f3rico, mas na tradu\u00e7\u00e3o institucional dessa ambiguidade.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">VI. Da Performatividade \u00e0 Prescri\u00e7\u00e3o: Media\u00e7\u00e3o Institucional<\/h2>\n\n\n\n<p>Quando conceitos p\u00f3s-estruturalistas s\u00e3o incorporados por institui\u00e7\u00f5es \u2014 universidades, pol\u00edticas de diversidade, protocolos administrativos e jur\u00eddicos \u2014, sua fun\u00e7\u00e3o muda. Institui\u00e7\u00f5es operam com crit\u00e9rios de decidibilidade e aplicabilidade. Categorias precisam ser estabilizadas para produzir efeitos normativos.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse processo ocorre em tr\u00eas momentos: didatiza\u00e7\u00e3o, juridifica\u00e7\u00e3o e normativiza\u00e7\u00e3o moral. Conceitos cr\u00edticos tornam-se conte\u00fados pedag\u00f3gicos simplificados; categorias identit\u00e1rias passam a ter efeitos legais; e posi\u00e7\u00f5es sociais convertem-se em marcadores de autoridade moral e epist\u00eamica (FOUCAULT, 2008).<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado \u00e9 paradoxal: teorias que visavam dissolver ess\u00eancias produzem novas ess\u00eancias operacionais. A cr\u00edtica ao substancialismo d\u00e1 lugar a um substancialismo normativo secular.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">VII. Privil\u00e9gio Epist\u00eamico e Autoridade Ontol\u00f3gica<\/h2>\n\n\n\n<p>A no\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gio epist\u00eamico ilustra essa muta\u00e7\u00e3o. Em vers\u00f5es sofisticadas da <em>standpoint theory<\/em>, posi\u00e7\u00f5es marginalizadas podem oferecer vantagens epist\u00eamicas provis\u00f3rias, desde que submetidas \u00e0 cr\u00edtica intersubjetiva (HARDING, 1991; COLLINS, 2000). N\u00e3o h\u00e1 acesso autom\u00e1tico \u00e0 verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Na vers\u00e3o institucionalizada do identitarismo, essa cautela desaparece. A experi\u00eancia vivida torna-se crit\u00e9rio incontest\u00e1vel; a posi\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria confere autoridade epist\u00eamica autom\u00e1tica. Forma-se um sistema circular: contestar uma afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 desqualificado como express\u00e3o de privil\u00e9gio estrutural.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado \u00e9 a substitui\u00e7\u00e3o do sujeito cognoscente pela categoria autorizadora. N\u00e3o \u00e9 o indiv\u00edduo que conhece; \u00e9 a identidade que conhece atrav\u00e9s dele. O <em>hic homo intelligit<\/em> \u00e9 substitu\u00eddo por <em>haec identitas certificat<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">VIII. O Retorno do Erro Averro\u00edsta<\/h2>\n\n\n\n<p>Essa opera\u00e7\u00e3o configura uma homologia estrutural com o averro\u00edsmo. Assim como o intelecto separado medieval deslocava a cogni\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo para uma subst\u00e2ncia comum, o identitarismo desloca a raz\u00e3o do sujeito para a posi\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria certificada. A ag\u00eancia dissolve-se em estruturas que pensam por ele.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">IX. Men\u2019s Rights e a Restaura\u00e7\u00e3o da Ag\u00eancia<\/h2>\n\n\n\n<p>O campo dos <em>Men\u2019s Rights<\/em> revela esse mecanismo em sua forma mais n\u00edtida. O sujeito masculino \u00e9 reduzido a portador de uma categoria estrutural totalizante \u2014 \u201copressor\u201d, \u201cpatriarcado\u201d, \u201cmasculinidade hegem\u00f4nica\u201d. Vulnerabilidades masculinas concretas tornam-se invis\u00edveis ou moralmente deslegitimadas.<\/p>\n\n\n\n<p>A acusa\u00e7\u00e3o de que <em>Men\u2019s Rights<\/em> seria mera rea\u00e7\u00e3o patriarcal confunde planos. A exist\u00eancia de apropria\u00e7\u00f5es reacion\u00e1rias n\u00e3o invalida a reivindica\u00e7\u00e3o leg\u00edtima de que homens concretos possuem vulnerabilidades espec\u00edficas. Negar essa possibilidade \u00e9 repetir o erro averro\u00edsta: dissolver o indiv\u00edduo na abstra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A restaura\u00e7\u00e3o da ag\u00eancia exige princ\u00edpios n\u00e3o-identit\u00e1rios: universalismo falibilista, simetria epist\u00eamica, reconhecimento de particularidades sem essencializa\u00e7\u00e3o e media\u00e7\u00e3o racional de conflitos.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Conclus\u00e3o: A Raz\u00e3o Habitada ou a Estrutura Separada<\/h2>\n\n\n\n<p>O identitarismo contempor\u00e2neo n\u00e3o falha por denunciar desigualdades, mas por reinstaurar, sob linguagem secular, uma metaf\u00edsica que dissolve a ag\u00eancia individual. Ao deslocar a raz\u00e3o do sujeito para estruturas identit\u00e1rias, repete o erro averro\u00edsta sob nova forma.<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta tomista permanece atual: a raz\u00e3o habita o sujeito concreto. Sem o <em>hic homo intelligit<\/em>, n\u00e3o h\u00e1 \u00e9tica, nem justi\u00e7a, nem pol\u00edtica racional \u2014 apenas poder legitimado pela linguagem da virtude.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Refer\u00eancias (ABNT)<\/h2>\n\n\n\n<p>ALTHUSSER, Louis. <strong>Ideologia e aparelhos ideol\u00f3gicos de Estado<\/strong>. Lisboa: Presen\u00e7a, 1980.<br>AQUINO, Tom\u00e1s de. <strong>Suma Teol\u00f3gica<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2004.<br>AVERROES. <strong>Long Commentary on the De Anima<\/strong>. Oxford: Oxford University Press, 2009.<br>BUTLER, Judith. <strong>Gender Trouble<\/strong>. New York: Routledge, 1990.<br>BUTLER, Judith. <strong>Bodies That Matter<\/strong>. New York: Routledge, 1993.<br>COLLINS, Patricia Hill. <strong>Black Feminist Thought<\/strong>. New York: Routledge, 2000.<br>DERRIDA, Jacques. <strong>Of Grammatology<\/strong>. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1997.<br>FOUCAULT, Michel. <strong>Seguran\u00e7a, territ\u00f3rio, popula\u00e7\u00e3o<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2008.<br>HARDING, Sandra. <strong>Whose Science? Whose Knowledge?<\/strong> Ithaca: Cornell University Press, 1991.<br>KUPERS, Terry A. Toxic masculinity as a barrier to mental health treatment in prison. <em>Journal of Clinical Psychology<\/em>, v. 61, n. 6, p. 713-724, 2005.<br>LACAN, Jacques. <strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.<br>L\u00c9VI-STRAUSS, Claude. <strong>Antropologia estrutural<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, 2008.<br>SAUSSURE, Ferdinand de. <strong>Curso de lingu\u00edstica geral<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Cultrix, 2012.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Genealogia do Descentramento do Sujeito e a Dissolu\u00e7\u00e3o da Ag\u00eancia no Identitarismo Contempor\u00e2neo Introdu\u00e7\u00e3o Uma parte significativa do debate contempor\u00e2neo em torno de g\u00eanero, ra\u00e7a e identidade \u00e9 marcada por uma tens\u00e3o fundamental: ao mesmo tempo em que denuncia o essencialismo cl\u00e1ssico e reivindica a fluidez das categorias sociais, o identitarismo parece reinstaurar novas ess\u00eancias<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":7740,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[48],"tags":[386,366,383,382,375,378,381,377,384,376,379,385,380,367],"class_list":{"0":"post-7739","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-opiniao","8":"tag-agencia-individual","9":"tag-averrois","10":"tag-butler","11":"tag-derrida","12":"tag-erro-averroista","13":"tag-estruturalismo","14":"tag-foucault","15":"tag-identitarismo","16":"tag-mens-rights","17":"tag-metafisica-identitaria","18":"tag-pos-estruturalismo","19":"tag-razao-universal","20":"tag-saussure","21":"tag-tomas-de-aquino"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/iddh.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7739","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/iddh.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/iddh.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/iddh.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/iddh.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7739"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/iddh.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7739\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7741,"href":"https:\/\/iddh.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7739\/revisions\/7741"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/iddh.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7740"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/iddh.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7739"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/iddh.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7739"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/iddh.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7739"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}