{"id":7126,"date":"2025-06-10T08:00:00","date_gmt":"2025-06-10T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/iddh.com.br\/blog\/?p=7126"},"modified":"2025-06-09T09:45:31","modified_gmt":"2025-06-09T12:45:31","slug":"a-invisibilidade-masculina-nos-indicadores-de-violencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/iddh.com.br\/blog\/a-invisibilidade-masculina-nos-indicadores-de-violencia\/","title":{"rendered":"A Invisibilidade\u00a0Masculina nos Indicadores de Viol\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<p>A constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas no Brasil, especialmente aquelas voltadas \u00e0 seguran\u00e7a e \u00e0 sa\u00fade mental, depende diretamente da qualidade e da abrang\u00eancia dos dados oficiais. Nesse contexto, o <em>Atlas da Viol\u00eancia<\/em>, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (IPEA) e pelo F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, configura-se como uma das principais fontes de informa\u00e7\u00e3o sobre mortes violentas no pa\u00eds. No entanto, a compara\u00e7\u00e3o entre as edi\u00e7\u00f5es de <a href=\"https:\/\/www.ipea.gov.br\/atlasviolencia\/publicacoes\/51\/atlas-da-violencia-2020\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">2020<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.ipea.gov.br\/atlasviolencia\/arquivos\/artigos\/5999-atlasdaviolencia2025.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">2025<\/a> evidencia uma preocupante tend\u00eancia de invisibiliza\u00e7\u00e3o dos homens como v\u00edtimas.<\/p>\n\n\n\n<p>A edi\u00e7\u00e3o de 2020 apresentava uma an\u00e1lise robusta sobre a vitimiza\u00e7\u00e3o masculina: 91,8% dos homic\u00eddios no Brasil tinham como v\u00edtimas os homens. O documento trazia ainda recortes detalhados por local do homic\u00eddio (69,4% dos homens assassinados na rua; apenas 7,9% em casa), meio utilizado, faixa et\u00e1ria, escolaridade e estado civil. J\u00e1 o <em>Atlas da Viol\u00eancia 2025<\/em>, embora mencione que 94% das v\u00edtimas de homic\u00eddios juvenis (15 a 29 anos) s\u00e3o homens, omite dados relevantes: n\u00e3o h\u00e1 informa\u00e7\u00e3o sobre local do crime, instrumento letal, nem recortes sociodemogr\u00e1ficos detalhados como antes. A vitimiza\u00e7\u00e3o masculina aparece menos como objeto de an\u00e1lise e mais como dado de apoio a outras narrativas.<\/p>\n\n\n\n<p>No que se refere ao suic\u00eddio, ambas as edi\u00e7\u00f5es convergem no reconhecimento de que a maioria das mortes por causas autoinfligidas s\u00e3o de homens. A edi\u00e7\u00e3o de 2020 destacava que muitos suic\u00eddios masculinos s\u00e3o erroneamente classificados como &#8220;mortes violentas com causa indeterminada&#8221;, em raz\u00e3o do uso de instrumentos como armas de fogo e objetos contundentes. A edi\u00e7\u00e3o de 2025 aprofunda a an\u00e1lise sobre suic\u00eddios juvenis, indicando que a maioria das v\u00edtimas s\u00e3o homens, solteiros, de baixa escolaridade, entre 15 e 24 anos, com \u00eanfase na popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. Ainda assim, nenhum dos documentos aborda de forma direta e sistem\u00e1tica a depress\u00e3o masculina como fator subjacente, nem tampouco reconhece o silenciamento hist\u00f3rico sobre o sofrimento ps\u00edquico dos homens.<\/p>\n\n\n\n<p>A maior diferen\u00e7a entre os dois relat\u00f3rios se manifesta no tratamento da viol\u00eancia dom\u00e9stica. Enquanto a edi\u00e7\u00e3o de 2020 reconhecia que 7,9% dos homic\u00eddios de homens ocorriam no \u00e2mbito dom\u00e9stico (em contraste com 38,9% entre mulheres), a edi\u00e7\u00e3o de 2025 simplesmente omite os homens dessa discuss\u00e3o. Toda a an\u00e1lise \u00e9 voltada \u00e0 mulher como \u00fanica v\u00edtima da viol\u00eancia intrafamiliar, perpetuando uma narrativa unidimensional que ignora as complexas din\u00e2micas relacionais, inclusive aquelas que vitimizam homens, especialmente em contextos de conflitos conjugais, aliena\u00e7\u00e3o parental ou falsas den\u00fancias.<\/p>\n\n\n\n<p>O que se observa, portanto, \u00e9 um deslocamento metodol\u00f3gico e pol\u00edtico. A edi\u00e7\u00e3o de 2020, embora n\u00e3o isenta de recortes ideol\u00f3gicos, apresentava uma maior abrang\u00eancia anal\u00edtica, permitindo compreender o fen\u00f4meno da viol\u00eancia em sua complexidade. A edi\u00e7\u00e3o de 2025, em contrapartida, revela uma sele\u00e7\u00e3o narrativa que parece orientar-se mais por um vi\u00e9s ideol\u00f3gico do que por um compromisso com a neutralidade cient\u00edfica. A invisibiliza\u00e7\u00e3o masculina n\u00e3o \u00e9 meramente uma aus\u00eancia: \u00e9 um gesto editorial ativo, que impacta diretamente a formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas e o reconhecimento institucional de demandas urgentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Negar visibilidade \u00e0s v\u00edtimas masculinas \u00e9 negar-lhes tamb\u00e9m cidadania e prote\u00e7\u00e3o. Se o conceito de g\u00eanero serve para reconhecer desigualdades hist\u00f3ricas, n\u00e3o pode ser seletivo. A perspectiva de g\u00eanero n\u00e3o deveria significar a exclusividade feminina do sofrimento, mas sim a capacidade de reconhecer que homens tamb\u00e9m morrem, sofrem, silenciam e s\u00e3o negligenciados pelas estruturas estatais.<\/p>\n\n\n\n<p>Em tempos de discursos cada vez mais polarizados, \u00e9 preciso resgatar o compromisso com a verdade emp\u00edrica e com a pluralidade das v\u00edtimas. Invisibilizar homens \u00e9 escolher ignorar uma parcela significativa da viol\u00eancia que assola o pa\u00eds. \u00c9 tempo de repensar os paradigmas das pesquisas e exigir que os dados, e n\u00e3o as ideologias, orientem a ci\u00eancia e a justi\u00e7a social.<\/p>\n\n\n\n<p>Importa destacar, por fim, que os dados oficialmente publicados est\u00e3o sujeitos a subnotifica\u00e7\u00f5es. No caso dos homens, a realidade pode ser ainda mais dr\u00e1stica, uma vez que a legisla\u00e7\u00e3o brasileira obriga a notifica\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria apenas de casos envolvendo viol\u00eancia contra mulheres, n\u00e3o havendo previs\u00e3o legal equivalente para as viol\u00eancias sofridas por homens. Isso implica em invisibilidade estat\u00edstica e institucional, ocultando parte significativa da viol\u00eancia que os afeta e impedindo a ado\u00e7\u00e3o de medidas eficazes de preven\u00e7\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas no Brasil, especialmente aquelas voltadas \u00e0 seguran\u00e7a e \u00e0 sa\u00fade mental, depende diretamente da qualidade e da abrang\u00eancia dos dados oficiais. 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