{"id":7117,"date":"2025-06-09T08:00:00","date_gmt":"2025-06-09T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/iddh.com.br\/blog\/?p=7117"},"modified":"2025-06-08T17:20:45","modified_gmt":"2025-06-08T20:20:45","slug":"combate-a-paternidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/iddh.com.br\/blog\/combate-a-paternidade\/","title":{"rendered":"Combate \u00e0 Paternidade"},"content":{"rendered":"\n<p>Vivemos tempos em que a presen\u00e7a do pai deixou de ser presumida como um bem. Na contram\u00e3o do discurso dos direitos iguais e da valoriza\u00e7\u00e3o dos v\u00ednculos familiares, emerge uma cultura institucional e simb\u00f3lica que naturaliza \u2014 e at\u00e9 celebra \u2014 a aus\u00eancia paterna. A paternidade, em muitos contextos, n\u00e3o \u00e9 mais incentivada: \u00e9 combatida, direta ou indiretamente, por pr\u00e1ticas sociais, discursos ideol\u00f3gicos e pol\u00edticas p\u00fablicas enviesadas. Nesse cen\u00e1rio, a figura paterna se v\u00ea deslocada, desvalorizada e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, substitu\u00edda por uma concep\u00e7\u00e3o unilateral de cuidado, que ignora os efeitos delet\u00e9rios dessa exclus\u00e3o sobre as crian\u00e7as e sobre a pr\u00f3pria estrutura social.<\/p>\n\n\n\n<p>A obra <em>Fatherless America: Confronting Our Most Urgent Social Problem<\/em> (1996), de David Blankenhorn, permanece uma das mais contundentes den\u00fancias desse processo. Ao inv\u00e9s de interpretar a aus\u00eancia paterna como uma exce\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica ou uma consequ\u00eancia pontual de conflitos conjugais, Blankenhorn trata o fen\u00f4meno como uma tend\u00eancia sistem\u00e1tica, refor\u00e7ada cultural e institucionalmente, que desestrutura os fundamentos da vida comunit\u00e1ria. Seu diagn\u00f3stico \u00e9 claro: n\u00e3o se trata apenas de pais ausentes, mas de uma sociedade que escolheu funcionar sem eles.<\/p>\n\n\n\n<p>O autor identifica uma desconstru\u00e7\u00e3o programada da figura paterna, promovida por meios de comunica\u00e7\u00e3o, pol\u00edticas estatais e at\u00e9 mesmo pela jurisprud\u00eancia familiar. Em programas televisivos, o pai \u00e9 frequentemente retratado como incompetente, inconveniente ou desnecess\u00e1rio. Em muitas decis\u00f5es judiciais, sua presen\u00e7a \u00e9 tratada como acess\u00f3ria, enquanto a maternidade \u00e9 rigidamente colocada como o centro exclusivo do afeto e da autoridade. Essa cultura tem por consequ\u00eancia um decl\u00ednio na responsabilidade paterna, mas tamb\u00e9m, e mais gravemente, uma perda na capacidade coletiva de transmitir valores, limites, afeto e cidadania \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao reunir dados emp\u00edricos, Blankenhorn demonstra que crian\u00e7as que crescem sem a figura paterna presente est\u00e3o mais propensas \u00e0 evas\u00e3o escolar, envolvimento em condutas infracionais, quadros de depress\u00e3o, dificuldades de socializa\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es afetivas inst\u00e1veis. N\u00e3o se trata de culpabilizar m\u00e3es solo, que muitas vezes enfrentam essas batalhas sozinhas com extrema dignidade, mas de denunciar uma engenharia social que converte a aus\u00eancia em regra e a presen\u00e7a em exce\u00e7\u00e3o judicialmente contestada. O resultado \u00e9 um ciclo de desagrega\u00e7\u00e3o que amplia desigualdades, acirra conflitos e desmoraliza a fun\u00e7\u00e3o educativa da fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>No campo institucional, a cr\u00edtica de Blankenhorn \u00e9 ainda mais aguda. Ele aponta que as leis de cust\u00f3dia, as pr\u00e1ticas dos tribunais de fam\u00edlia e as pol\u00edticas de assist\u00eancia social muitas vezes relegam o pai a um papel marginal, quando n\u00e3o o excluem completamente da vida dos filhos. A guarda unilateral \u00e9 concedida sem o devido contradit\u00f3rio, medidas protetivas s\u00e3o banalizadas e a media\u00e7\u00e3o parental \u00e9 desestimulada. No Brasil, esse panorama n\u00e3o \u00e9 diferente. Leis aparentemente &#8220;bem-intencionadas&#8221;, mas sem a devida an\u00e1lise de impacto social, t\u00eam sido deturpadas por interpreta\u00e7\u00f5es que, em nome da prote\u00e7\u00e3o, sacrificam o devido processo legal e o direito ao conv\u00edvio familiar, atropelando princ\u00edpios fundamentais caros \u00e0 nossa Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Combater essa cultura da exclus\u00e3o paterna exige mais que den\u00fancias. \u00c9 preciso reabilitar a paternidade como fun\u00e7\u00e3o essencial \u00e0 forma\u00e7\u00e3o humana. O pai n\u00e3o \u00e9 substitu\u00edvel por assistentes sociais, psic\u00f3logos escolares ou redes digitais. Ele \u00e9 \u2014 ou deveria ser \u2014 agente ativo na transmiss\u00e3o de valores, na prote\u00e7\u00e3o moral da crian\u00e7a e no fortalecimento dos v\u00ednculos afetivos duradouros. Trata-se de recuperar o papel do pai como educador do car\u00e1ter, e n\u00e3o apenas como fornecedor de recursos ou figura eventual nas visitas supervisionadas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivemos tempos em que a presen\u00e7a do pai deixou de ser presumida como um bem. Na contram\u00e3o do discurso dos direitos iguais e da valoriza\u00e7\u00e3o dos v\u00ednculos familiares, emerge uma cultura institucional e simb\u00f3lica que naturaliza \u2014 e at\u00e9 celebra \u2014 a aus\u00eancia paterna. 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